Sala de aula sem intolerância linguística

Apesar de serem pouco semelhantes, preconceito e intolerância linguística têm significados e aplicações diferentes. Convidamos o professor Lucas Henrique Garcia, com graduação em Letras e Mestrado em linguística aplicada pela Universidade de Brasília, para falar a respeito desse assunto. Com experiência em processos formativos de professores e aprendizes de língua estrangeira, Lucas esclareceu algumas dúvidas. Confira:

 

  • O que é intolerância linguística?

Uma série de autores, geralmente estudiosos da Sociolinguística e da Análise do Discurso, discutem em suas obras o que chamamos mais comumente de “preconceito” linguístico.

Uma possibilidade sucinta de definição seria conceber a intolerância linguística como o resultado (quase imediato) do preconceito linguístico, isto é, sua materialização por meio do discurso.

Por exemplo, uma pessoa pode ter preconceito linguístico em relação à fala “típica” de uma classe social menos favorecida e, não necessariamente, ser intolerante e expressar/verbalizar seu preconceito.

Em suma, enquanto o preconceito é uma opinião ou um sentimento, a intolerância é uma atitude ou um comportamento.

 

  • Como casos de preconceito e intolerância linguística podem ser percebidos?

Confere-se o preconceito linguístico por meio de sua verbalização, o ato discriminatório, que se chama de intolerância. Sendo assim, ao perceber a intolerância, logo inferimos a ideia preconceituosa que a gerou.

 

Quando falamos, não apenas proferimos sons em uma sequência lógica e sistemática. Falamos para alguém, sobre algo, em um determinado contexto, de um lugar de fala específico.

 

Quando, em uma sala de aula, um aluno comete um desvio da norma padrão ao proferir uma opinião e os demais (colegas e até mesmo o professor) o discriminam, estamos diante de um típico caso de intolerância linguística.

 

  • Qual o limite entre corrigir o aluno e ser intolerante?

O próprio conceito de norma padrão é bastante discutível, especialmente no português do Brasil, pois a palavra “padrão” implica uma falsa sensação de homogeneidade.

 

O problema maior, em minha concepção, está no ciclo vicioso que se gera a partir dessa ideia de que há um padrão absoluto, uma forma correta, por exemplo: se eu tenho determinado preconceito linguístico e percebo que alguém próximo a mim cometeu o que eu concebo como “erro” de língua automaticamente, tenho a legitimidade para verbalizar o meu preconceito e discriminar o outro.

 

Dentro da sala de aula, quando o professor percebe um ato de preconceito linguístico, é essencial que ele interfira nessa interação e conscientize, de forma muito sutil, sobre a intolerância exercida, sempre se atentando para não repreender com pesos negativos.

 

 

  • A educação de casa influencia no comportamento dos alunos em relação a isso? Como podemos reduzir esses acontecimentos?

Definitivamente! O preconceito linguístico, como já dissemos, está no campo das ideias e não surge de repente. Assim como a intolerância, o preconceito é socialmente construído e reiterado pelas experiências linguísticas que vivemos diariamente em nossos grupos sociais. Provavelmente, a criança ou o adolescente deve ter sido “corrigido” previamente e faz uso do suposto “conhecimento” da língua para

 

estabelecer uma relação de superioridade para com o outro, que é automaticamente posicionado como inferior.

 

  • Quais são os exemplos mais comuns de preconceito linguístico?

Quando um aluno diz que quem fala “vou no banheiro” – ao invés de utilizar a norma padrão e dizer “vou ao banheiro” – é “burro” e precisa “estudar mais português”, ele não está verbalizando aquele preconceito individualmente. Trata-se de um fenômeno de historicidade condensada. Não estou dizendo que o aluno tenha a intenção de fazê-lo, mas é importante compreender que a língua opera na realidade social independentemente de nossa intencionalidade.

 

Para reduzir a intolerância linguística é fundamental que a comunidade escolar (principalmente família e professores) atuem em conjunto. Se modificarmos nossos próprios comportamentos linguísticos, quem está sendo formado e educado por nós não reproduzirá nossas ideias negativas e pré-concebidas.

 

  • Como o professor pode trabalhar a tolerância dentro da sala de aula?

O primeiro passo é se conscientizar de seu lugar como educador. Quando estamos diante de mentes inquietas sendo formadas por nossas aulas, tudo aquilo que dissermos pode marcar a vida de nossos alunos, positiva ou negativamente.

 

Ao preparar nossas aulas precisamos planejar também a troca de informações por meio do discurso. Devemos pensar antes de falar, pensando em cada momento e em como eles podem acontecer da forma mais sutil possível.

 

Os momentos de preconceito linguístico, no entanto, se manifestam durante interações informais e não planejadas, como, por exemplo, ao contar uma história ou responder alguma pergunta. É preciso ter cuidado.

 

Acredito que agir – discursivamente – a partir da percepção de uma situação de intolerância linguística em sala de aula a fim de desconstruí-la e fazer isso utilizando a própria linguagem é o mecanismo mais eficaz de conscientização e consequente interrupção dos atos de fala discriminatórios.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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